Saio da marina em nosso inflável de 4m e motor 15hp. Uma idéia fixa: capturar um dos primeiros olhetes que já devem estar por aqui pela Baja Califórnia nesta fria época do ano. Estamos entrando no inverno por aqui, diferente do Brasil, que entra no verão. O dia começa bem e na primeira caída, faço uma descida em um naufrágio que está a 28m e a 24,4m eu arpoo um dentão e ainda acerto outro na cabeça. Um duble. A idéia do olhete dirige o timão novamente. Encontro um pescador de linha e pergunto pelos olhetes. Ele sugere que já estão aparecendo no lado mais profundo e exposto de uma ilha com formato de baleia, distante umas 15 milhas náuticas.

 

Me dirijo até lá enquanto o vento começa a apertar me obrigando a navegar bem próximo da Ilha Espírito Santo, a maior desta região, ao norte de La Paz, onde moramos. Depois de uma hora de navegação picada chego na ilha. Passo por uma lancha ancorada na parte abrigada e por tres pescadores sub, aos quais faço sinais de ok. Me dirijo até um ponto conhecido, no lado de fora da ilha que cai de 25 pra 32 metros, uma queda abrupta que modifica a correnteza e atrai grande quantidade de pequenos peixes e com eles, os tão cobiçados olhetes. Passo uma vez mais pela parte mais alta e logo pela rampa abrupta. Vejo na sonda uma bola vermelha de vida pequena concentrada. É o sinal que eu esperava. Deixo cair o chumbo da bóia de marcação e marco o exato ponto onde a vida está concentrada. Agora vem a parte difícil pois a correnteza está forte e o vento ainda mais...ancorar nesta profundidade com uma garatéia super leve não será nada fácil. Uma, duas, três, quatro tentativas e nada. Amarro um chumbo na garatéia e pronto, na primeira vez consigo ancorar, deixando o inflável a uns 40m da bóia. Me equipo, entro na água e me dirijo imediatamente para a bóia, passando por um cardume de grandes ubaranas. Passo da bóia contra a correnteza e continuo nadando até onde acho que deveria mergulhar. Me preparo, respiro e começo a descer. Chego nos 22m e posso ver bem a pedra que sobe até os 26m, mas não vejo os olhetes, nem a bola de vida pequena que vi na sonda, apenas um parente das caranhas que chamamos de pargo mulato e que não quis se aproximar. Na subida, quase na superfície vejo duas cavalas wahoo se desvanecendo na água fria, verde e um pouco turva. Seria uma visão? Uma ilusão de inverno? Naquela água verde e fria? Dois wahoos? Muito pouco provável, mas totalmente real. Penso em abortar os mergulhos que faria até o inflável e ir buscar o flasher para não assustar os peixes e ter uma chance de que se aproximem. Desisto da idéia e me volto novamente para a pesca dos olhetes. Continuo descendo até os 20, 22m sem ver os olhetes. Chego no inflável e penso novamente nos wahoos, deveria pegar o flasher e fazer uma tentativa...as ondas estão grandes e o vento apertou ainda mais, não é seguro deixar o inflável ali mais tempo e caso arraste a diminuta garatéia, eu poderia ficar sem embarcação. Subo no inflável e começo a puxar o cabo da garatéia, está enroscada e o inflável bem ancorado. Agora sim, esta é minha chance. Pego o flasher (duas placas de acrílico com colantes refletivos amarradas uma a outra) e repito a rotina anterior. Nado até a bóia, passo por ela e continuo um pouco mais. Embaixo de mim sobe a bola de pequenos peixes que chamamos macarelas aqui, ótimas iscas para peixes pelágicos e a razão pela qual os wahoos estavam ali. Desço sem tomar fôlego e sem jogar o flasher para não assustar as iscas. Me coloco no meio delas e desço um pouco mais até o limite inferior do cardume. A visão me anima. São centenas de pequenos peixes nadando em conjunto para todas as direções...a falta de visibilidade da água não deixa que eu veja qualquer predador, caso eles estejam por ali. Subo e começo a rotina de jogar e recuperar o flasher em pouca profundidade enquanto derivo com a correnteza e me aproximo do inflável. Uma última vez, jogo o flasher pela parte de fora da linha de ancoragem do inflável, esperando que os wahoos estejam por ali em busca das iscas. De repente, aí estão os dois. Assim que os vejo afundo e busco ficar na mesma linha de profundidade que eles. Tenho o flasher caindo devagar à minha esquerda e os dois wahoos à minha direita, sendo o menor mais próximo de mim. O segundo é bem maior e vou por ele. Quando nivelo minha profundidade e fico imóvel, o grande faz sua jogada e toma a frente do menor, vindo diretamente até mim. Posso escolher onde colocar o arpão de minha Rob Allen 160, mas a cabeça do wahoo não me parece tão segura, poderia passar por cima, ou por baixo. Bum. O arpão entra alguns milímetros atrás da guelra e o wahoo sai em seu arranque usual, deixando um rastro de borbulhas e fazendo a carretilha zunir. Me lembro do flasher, presente do meu amigo Alaor Neto e que já me trouxe tantas alegrias. Desço atrás dele ao mesmo tempo em que pressiono o dynema contra o tubo da arma, diminuindo a velocidade com que a linha sai da carretilha. Consigo chegar no flasher antes que a linha da carretilha termine. Começo a nadar na direção do inflável, que já ficou correnteza acima alguns poucos metros. Jogo o flasher dentro e também o arbalete. Fico com a linha na mão e começa a briga. O peixe é forte, vai pra baixo, nada contra a correnteza tomando linha. Eu apenas mantenho a pressão, não querendo forçar demais a carne do peixe. Ele pede linha, eu dou, ele se cansa, eu cobro linha e assim ficamos, conectados pela linha, um contra o outro e eu imaginando ele em minhas mãos, com todo o respeito e admiração que tenho por aquela criatura majestosa e forte. Passam-se uns bons 10 minutos até que ele se deixa ver. Não tenho um parceiro pra dar um segundo tiro e nem tenho como pegar uma segunda arma e arná-la sem afrouxar a linha. Prefiro o ultimate fight e o full contact. Puxo os últimos metros de linha e pego no arpão...o peixe reage, usa suas últimas forças pra fugir, já não dou mais linha, vejo que o arpão está bem fixado e não rasgou nem um centímetro da carne do peixe, já não vai rasgar. Faço minha jogada, puxo com violência o arpão pro meu lado e diminuo a distância até que minha luva toca no peixe. Aperto o corpo dele contra a barbela...é meu...é nosso...nosso presente de Natal, meu da Lilian Horayama e do nosso bebê, que está a caminho... Wahoooooo!!! Esse é o grito de comemoração...Embarco o peixe e não posso acreditar no tamanho...é enorme...lindo...De volta à marina penduro a balança em um dos pilares, ao lado do nosso barco, do Brasil Cristalino que ali repousa tranquilo, assistindo a tudo.... Mal posso subir o peixe sem ajuda pra colocá-lo no gancho da balança. 25,5kg. Feliz Natal e um Ótimo Ano Novo a todos, são os votos da família Brasil Cristalino.

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